24 abril 2010

quando eu estava na segunda série tinha um garoto extremamente freak na minha turma chamado túlio. o túlio era chato pra caralho. implicante. gostava de cutucar, puxar cabelo, zoar o meu uniforme. me perturbava a aula inteira, me botava mil defeitos - e eu enlouquecia, claro. ficava possuída de ódio, mais ainda porque era uma criança toda classuda (hahahaha, juro, não perguntem como acabei assim) e não podia perder a linha no meio da aula. mas quando se aproximava a hora do recreio esse ódio ia se transformando numa euforia sem limites. porque a hora do recreio era a hora de espancar o túlio.

saca filme de presídio, que o preso mais neurótico vem batendo nas grades pra intimidar? era eu. igualzinho. eu ia batendo nas mesas até chegar no lugar do túlio. nisso ele já estava choramingando. a abordagem geralmente consistia em agarrá-lo pelos cabelos e tacar a cabeça dele no tampo da mesa. depois eu avisava que estava indo pro pátio e ele devia ir junto, pra apanhar bastante.

curioso é que ele sempre ia. sempre. maluco dos infernos. sim, porque ele poderia ficar na sala, ou pedir ajuda. mas não. de alguma forma obscura ele *queria* isso. desejava esse momento. acho que era a única hora do dia em que ele ganhava alguma visibilidade.

esse ciclo durou uns bons meses, até que os pais resolveram tirá-lo da escola. não creio que tenha resolvido grandes coisas. hoje dá pra ver que a escola era o menor dos problemas dele.

o foda é que a gente cresce mas o mundo continua cheio de túlios. gente que só obtém prazer quando consegue arrancar o seu pior. que mina sua educação, seus princípios, sua serenidade. que força a sua raiva para alimentar-se dela. eu voltei a perder as estribeiras com gente assim depois de adulta. fisicamente, inclusive. e recebi o troco mais de uma vez, porque túlios adoram um revanchismo. então agora eu passo longe. eu olho pro outro lado, mordo a língua três vezes. eu não espanco mais túlios na hora do recreio. não porque não queira, mas porque é pra isso que eles vivem, e sem isso eles não são nada.


mas às vezes, puta que pariu, que vontade que dá.

Nenhum comentário:

Postar um comentário